Neurocientista lista evidências científicas que poderiam melhorar o ensino

Em entrevista ao jornal Nexo, o neurocientista Sidarta Ribeiro falou sobre educação e políticas para as drogas. Leia:

Como seria o ensino baseado em evidências?
O Brasil tem muitos modelos educacionais, mas é tudo na base da opinião. É sempre ‘ah, eu tenho 20 anos de magistério, minha experiência é tal’. É tudo muito amador. Precisamos criar uma geração de pesquisadores e educadores capazes de fazer pesquisa científica em sala de aula. Se Kumon é melhor que tabuada, vamos testar, como se fosse um modelo clínico, estatístico. Mas se você fala isso, os pedagogos odeiam. Dizem que não farão experimento nos alunos. Mas na verdade sempre que você dá aula faz um experimento. Só não é controlado.

Por que a escola como é hoje não funciona?
Eu digo que a soneca ajuda a consolidar as informações aprendidas na escola, as diretoras reclamam: ‘ah, mas aí eu vou comer tempo de aula’. Mas por que ficar 50 minutos dando aula para só no final falar o que cai na prova? Dá o seu recado em 10 minutos e deixa o menino consolidar isso aí dormindo.  O Brasil gasta muita grana, aumentou os seus gastos e os resultados são pífios. O país é o menos eficaz no ranking de 30 países da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico]. A educação brasileira é baseada na mediocridade. Nem os que estão indo bem podem avançar, e os que estão mal não têm ajuda. Temos um desempenho ridículo considerando a nossa riqueza, o tamanho do país e mesmo o investimento em educação.

Investir no ensino de exatas e biológicas pode fazer diferença?
Sim. Temos um país de bacharéis. muita gente fazendo Direito e pouca gente fazendo exatas, engenharias. A eficácia das exatas é evidente. Não estou dizendo que a gente só tem de investir nisso – temos tradição em sociologia, antropologia, literatura. Mas isso não é caro. O que é caro são biomédicas e exatas.

Você concorda com as análises de que a tecnologia está nos tornando mais burros?
Existe um impacto enorme. Bom e ruim. Uma pessoa da época do Homero, que sabia recitar a Ilíada, tinha uma quantidade de memória que hoje ninguém tem. Nos anos 1980 eu tinha 50 telefones memorizados. Hoje eu sei dois, porque a memória está fora do nosso corpo. Temos HD externo. Temos a nuvem. É bom para a sociedade, você não precisa decorar fatos, basta procurar. Mas, se você não tem nenhum fato consigo, fica difícil pensar. Isso é um problema das novas gerações. Elas têm capacidade de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, e muito rápido. Mas elas têm cada vez menos capacidade de profundidade. E isso pode ser um grande problema.

E de que maneira podemos exercitar ou reverter isso?
Criar um espaço offline. Situações regulares em que a criança não assista TV, Netflix, não esteja jogando. Em que ela leia, brinque sozinha, com amigos, faça esportes, tenha contato com a natureza. O que era normal e hoje é luxo. Estar online o tempo todo é uma falta de espaço mental, de introspecção. Se não tiver tédio, não terá profundidade.

Que medidas práticas poderiam ser tomadas pelo Ministério da Educação?
Sidarta Ribeiro

Para aumentar a motivação, os professores deveriam ganhar R$ 15 mil. Aí seriam atraídas as melhores mentes para dar aula para criança. Com R$ 4,5 mil só vamos atrair os românticos, Dom Quixotes, sem os quais estaríamos muito pior, e os fracassados, que não conseguiram ser outra coisa e se tornam professores. Vamos precisar subir os salários para uma outra faixa. Aí sim mexemos na educação. Mas, para isso ser feito, não tem jeito: o ensino tem de ser federalizado.

O MEC também ainda não se apropriou dos achados científicos para mudar o currículo e o modus operandi. Claramente existem gargalos fisiológicos para a escola: sono, alimentação e exercício. Precisamos caminhar para um modelo educacional que funcione, seja escalável e tenha baixo custo. Temos de investir em coisas simples: soneca, alimentação, educação física na hora certa. E agir de maneira tópica e individualizada. Provavelmente a educação do futuro é aquela em que o aluno chega na escola, faz o que quer fazer primeiro, joga futebol, depois tem uma aula muito boa e muito rápida, depois alimentação adequada com muita glicose e sono para consolidar as informações. E repete-se isso ciclicamente. Na escola hoje o aluno aprende com muita monotonia, passa toda tarde sofrendo interferência sensorial, e aí só dorme a noite para consolidar a informação que aprendeu de manhã. Isso não funciona.

Como o sono (e a falta dele) interferem no aprendizado?
Na adolescência existe um atraso de fase do sono que é fisiológica, além da televisão e da internet. Não faz sentido você levar uma pessoa que ainda não terminou seu último ciclo de sono pra escola, a não ser que lá haja a oportunidade de dormir. Seria uma solução começar a escola mais tarde, mas o o horário de início está associado ao trabalho dos pais. O horário não é pedagogicamente otimizado, é laboralmente otimizado, para o patrão. Então se a escola não pode mudar a estrutura da sociedade, ela deve acolher o aluno. Tá com fome? Tem de comer. Tá com sono? Tem de dormir. É óbvio que deixar ele com sono e fome não vai funcionar.

Os benefícios do sono são os mesmos para crianças e adultos?
Os primeiros estudos foram feitos em adultos. Em crianças são mais raros e mostram que, para elas, os benefícios são maiores. Existe uma controvérsia sobre quais fases de sono beneficiam quais aprendizados. Há dois tipos de aprendizados: o declarativo, sobre coisas, pessoas, fatos e lugares, e o de procedimento, como andar de bicicleta. Os dois são beneficiados pelo sono, mas talvez por fases diferentes.

O que nós sabemos sobre a consciência hoje?
Não há uma boa definição de consciência. Sabemos que ela existe, a consideramos um problema fundamental, mas nem ao mesnos temos uma clara definição do que ela seja. Mas acredito que vamos entendê-la tão bem quanto entendemos a função hepática. É uma função cerebral, talvez corporal, e ela certamente tem de ter uma definição científica racional que esteja ao nosso alcance.

O que é a expansão da consciência sob o ponto de vista da neurociência?
Hoje é uma metáfora, não temos uma definição. Mas qualquer pessoa que tenha experimentado uma substância psicodélica em doses adequadas sabe que a ação que elas provocam é tão profunda que revela um universo a ser explorado. Do ponto de vista da ciência: como é possível que uma substância usada em doses tão pequenas possa alterar tão completamente a percepção do ambiente e de maneira reversível? Porque os psicodélicos baseados na serotonina são muito seguros biologicamente. Ninguém fica dependente. Não tem overdose. A pessoa volta ao estado original. Mas… mais ou menos. Porque existem alterações psíquicas profundas. Essa experiência, se for bem guiada e bem administrada, pode ser transformadora e profunda. Se não, pode ser negativa. Costumo dizer que o uso de psicodélicos devia ser como o vôo livre: você faz depois que é treinado por um instrutor. Tem de ser apresentado por pessoas que saibam o que estão fazendo.

O fato dessas substâncias serem proibidas faz com que a pessoa que apresenta seja o amigo sem experiência nenhuma…
Sim. Nesse sentido, a regulamentação é urgente. Do ponto de vista da pesquisa aplicada, os psicodélicos e os canabinóides são substâncias que hoje são ilícitas mas têm alto potencial terapêutico. A guerra às drogas que demonizou essas substâncias por muito tempo acabou e a indústria está muito interessada em jogar isso no mercado. Vem a discussão política: se nós vamos legalizar, isso vai ser feito para que só a Souza Cruz venda, ou ela só vai poder ser cultivada em casa, ou vamos envolver a fundação Oswaldo Cruz? Acho muito bom que as farmacêuticas queiram vender substâncias canabinóides. Mas acho ruim que elas tenham esse monopólio. Não sou radical que acha que temos de excluir a cannabis de todo o mercado.

De que que maneira o fato dessas substâncias ainda serem ilícitas atrapalha as pesquisas da área?
O proibicionismo atrapalha tudo. As pesquisas, o cuidado à população, as políticas públicas para a área. No caso das pesquisas você simplesmente não consegue obter as substâncias. Tem de pagar fortunas à Anvisa para importar. R$ 5 mil só para preencher a papelada. É um cerceamento de pesquisa. No Brasil é muito difícil comprar substâncias que ativam esses receptores.

Estudos de propriedades antitumorais da cannabis mostram que ela, no futuro, será uma das principais ferramentas contra o câncer. Ela não apenas combate os sintomas que vêm da radioterapia ou da quimio, aumentando o apetite e diminuindo a dor e a ansiedade, mas também atua na causa de tumores. E não tem dose letal conhecida, não tem efeito em regiões profundas do cérebro, é uma droga muito segura que tem efeitos terapêuticos.

Como o probicionismo afeta os usuários?
O fato do mercado ser ilegal afeta a substância. Por que as pessoas morrem de overdose de cocaína? Porque elas não sabem a dose. Se tivessem comprado cocaína na farmácia, saberiam qual é a dose segura. Só os suicidas iriam além dela. Mas hoje a pessoa  compra alguma coisa branca, vai usando até a hora em que se sente bem e pode passar do ponto. O problema da substância é muito grave no proibicionismo. Para analisar o efeito da maconha no jovem, é preciso ver a substância que ele ingeriu: que maconha era essa? Que concentração de canabinoides ela tinha? Estava degradada, havia fungos? Você compra e não sabe o que é. E como você vai dizer para uma pessoa que ela é intolerante a cannabis, por exemplo se ela tiver uma tendência à psicose, se você não pode falar desse assunto?

Qual é o efeito da descriminalização para a saúde pública?
O usuário terá acesso ao sistema de saúde. Você para de gastar recursos com repressão e passa a cuidar de saúde e redução de danos. Há trabalhos que mostram que a maconha pode ser usada como porta de saída do crack. Mas isso implica uma visão não moralista, não ideologizada, voltada para a saúde da população. O que conseguimos nos últimos 40 anos com a guerra às drogas? Aumentamos o consumo e a violência. Claro que tá dando errado. Como legalizar? Ninguém sabe. O que podemos falar é que dos 20 países que legalizaram ou descriminalizaram não houve nenhum aumento no consumo – ou houve redução. É um experimento seguro. O que não é seguro é manter do jeito que tá hoje.

Fonte: Nexo Jornal